2.5.11

Ela tem lágrimas nos olhos, seus lábios tremem de amor.
Aquilo só poderia ser amor mesmo.
Jamais me esquecerei. Ela me puxa pelas mãos, vamos até a porta do quarto menor, que eu usava como escritório, e me diz: "Abra". Na mesa, um pacote enorme. No envelope sobre, um cartão: "Di: para você escrever o seu livro. Dora." Abro a caixa: uma máquina de escrever Olivetti Linea 96. Ela chora de amor.
Aciono a tecla “d” no rolo sem papel.
Dou-lhe um abraço, choro também.
Mas meu choro é mais por mim do que por ela: eu já não a amava, e ela fazia tudo para me segurar. Nesse mesmo ano, com seu 13º. salário, comprou-me sete camisas de uma só vez. Preparava as comidas que eu mais gostava; cuidava bem da casa; era simpática com minha família e meus amigos; econômica nos gastos pessoais e nas despesas da casa. Quase humilde. E maravilhosamente linda. Se eu estivesse querendo uma esposa perfeita, ela seria exatamente isso!
Mas eu queria mais do que uma esposa perfeita:
— Eu queria ser livre.


Solidão a Mil
Página 166.



Quando você entrou em meu coração, e conviveu com todas as flores que lá existiam — aquilo foi um belíssimo gesto de amor. Mas, agora, agora que você penetra o meu peito apaixonado, e exige que eu arranque todas as flores que lá existem — isto é violência. Não importa o nome que você lhe dê: isto é violência.
Esse texto acima foi originalmente escrito para Dora, a linda e delicada morena por quem me apaixonei no estúdio, enquanto ainda fazia suas trezentas fotos. Tivesse durado só três ou quatro meses, a nossa teria sido uma belíssima história de amor. Mas, eu e Dora, inexperientes e afoitos, cometemos o erro primário de ficar além do Pico... Para Dora, depois de um certo tempo, já não bastavam mais os meus olhares: ela queria ser a dona exclusiva dos meus olhos. E os olhos de um poeta, você sabe, não podem ser alienados. E a coisa então resultou numa tragédia...
Eu realmente demorei muito para reagir. Dora, no começo, era de uma leveza insuperável, inesquecível, mas depois se tornou uma âncora amarrada ao barco da minha vida. Só depois que reagi, só depois que saltei inteiro nos braços abertos da liberdade absoluta, só depois que passei a me amar de verdade, é que vi que a minha reação poderia ter se dado antes. Muito antes. E essa é a única dor que ainda carrego no peito. Perdi muito tempo: foram dois anos de relação despedaçada. Dois anos de tempo perdido. Para mim, que sofri demais em defesa da liberdade, e para ela, que não conseguiu seu intento de amarrar-me para sempre. Por isso, eu tenho vontade de perguntar a todas essas pessoas, que se dizem amar, mas não sabem sequer o que é amor, olhar para elas, olho no olho, mão na mão de cada uma delas — e gritar bem alto:
— E você, irresponsável: quando é que vai reagir?
Quando?
Se não rompermos com as circunstâncias opressoras, acabamos submergindo nelas. E se formos fracos, a submersão no tédio e no horror pode até nos agradar. Nesse caso, o futuro que teríamos, igualmente sucumbe.
Fico pensando.
Eu sempre fico pensando.

Teoria do Acaso
Página 213.